O medo da deusa

Devi sabia, intimamente, quem realmente era, mas era uma hipótese tão absurda que ela não se permitia acreditar realmente. Se não fosse real, ela iria se decepcionar muito. Mas não podia evitar de pensar cada vez mais, conforme seu aniversário de 21 anos se aproximava, como seria ser uma deusa.

Ela já passara por algumas experiências estranhas, que só reforçaram a esperança que tinha de ser mais do que uma partícula no mundo. Muitas vezes, ela tivera a forte sensação de que enxergava o mundo pelo ponto de vista errado, como se ela devesse ser uma consciência à parte, pairando. Já se viu pelo ponto de vista de outra pessoa, como se sua mente houvesse se separado do seu corpo e passado a observá-la. E as dores de cabeça eram tão comuns quanto respirar. 

Será que era real?

Sua única certeza era de que, se ela pudesse acreditar em algo com todas as partículas do seu ser, aquilo se tornaria real. Mas o problema era conseguir acreditar, afinal, acreditar em algo é diferente de esperar por algo. Acreditar é fazer acontecer, ter esperança é esperar acontecer. Devi tinha esperança de que seus maiores sonhos se tornassem reais e seu maior medo deixasse de preocupá-la.

O medo! Aquela coisa que a perseguia desde que entendera o que era, desde que percebera algo diferente em si mesma. Aquela palavra que sempre surgia nos assuntos mais inesperados. O sentimento incompreensível que a consumia e que ela afogava, com medo do medo que tinha. Medo, na crença dela, era o motivo do mundo se mover. A luz foi criada por medo da escuridão e de seus monstros, e desde então tudo foi guiado pelo medo.

O medo de Devi não era grande o suficiente para que ela deixasse de esperar e começasse a fazer.

Mas estava crescendo.

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